As Vozes Alfonsinas actuaram no passado dia 5 de Agosto na Igreja de Rocamador, em Valencia de Alcántara, Espanha, no âmbito das comemorações do casamento da Infanta D.Isabel, filha dos reis Católicos, com o nosso Rei D. Manuel I, o Venturoso, que se realizou em 1497 naquela vila da fronteira luso-espanhola.
O programa foi o seguinte:
Canções antigas: de Dom Dinis a Dom Manuel I
Valencia de Alcántara, 5 de Agosto de 2011
Susana Conde Teixeira, meio-soprano
Gonçalo Pinto Gonçalves, tenor e percussão
Victor Gaspar, barítono
Madalena Cabral, rabeque
Nuno Torka Miranda, alaúde e voz
Manuel Pedro Ferreira, voz, direcção e apresentação
I. Canções medievais em Galego-Português
1. Alfonso X, Cantiga de Santa Maria nº 346 (milagre de Estremoz)
2. D. Dinis, cantiga d'amor “Que mui gram prazer”(Perg. Sharrer nº4)
3. Martin Codax, cantiga d’amigo “Ondas do mar de Vigo”
4. D. Dinis, cantiga d'amor” Pois que vos Deus, amigo, quer guisar” (Perg. Sharrer nº1)
5. Afonso X, Cantiga de Santa Maria nº 322 (milagre de Évora): «A virgen, que de Deus madre éste, Filla e criada»
II. Canções profanas e peças instrumentais do Renascimento ibérico
6. Luís Milán: Fantasia (instr.)
7. Juan del Encina,“Un’ amiga tengo, hermana”, a três vozes
8. Anónimo, “Minina dos olhos verdes”, a três vozes
9. "Ojos tristes" (instr.)
10. Anónimo, “Parto triste saludoso”, a três vozes
11. Anónimo, “Cuidados meus tão cuidados”, a três vozes
12. Luís Narváez: Variações sobre “Guardame las vacas” (instr.)
13. Anónimo, romance de D. Inês, “Io mestando em Coimbra”, a solo
14. Anónimo, “Na fonte está Lianor”, a três vozes
15. Anónimo, “Senhora quem vos disser”, a solo
16. Luís Milán: Canção "Al amor quiero vencer" (instr.)
17. Anónimo, “Venid a sospirar al verde prado”, a três vozes
Ainda sobre a Antologia da Música em Portugal não podemos deixar de partilhar com quem por aqui passa o seguinte comentário de Jerome F. Weber, na Plainsong & Medieval Music 19 (April 2010), publicado pela Cambridge University Press
Cânticos religiosos dos séculos XII e XIII: Da Aquitânia a Compostela
Cânticos festivos para o dia de Natal:
Epístola de S. Paulo a Tito (para a Missa do Galo), com tropo Gaudeamus (Missal de Mateus)
Anónimo: Ad cantus leticie (discantus a 2 vozes, versão cisterciense)
Anónimo: Catholicorum concio (organum a 2 vozes):
versão aquitana, séc. XII
versão cisterciense de Hauterive, séc. XIII
versão cisterciense do mosteiro de Las Huelgas, séc. XIV
Cânticos para a Virgem Maria nos caminhos para Santiago:
Cantiga de Santa Maria nº 322 (Évora): «A virgen, que de Deus madre éste, Filla e criada»
Cantiga de Santa Maria nº 246 (Alcácer-do-Sal): «A que as portas do ceo abriu pera nos salvar»
Cânticos para Santiago:
Aymericus Picardi (c. 1150?): Ad honorem regis (conductus a 2 vozes, Códice calixtino, Santiago de Compostela)
Albertus Parisiensis (c. 1150): Congaudeant catholici (conductus a 3 vozes, Códice calixtino, Santiago de Compostela)
2ª Parte
Cantares de corte, cantares ao divino: Ferrara e Brasil
Canções do século XV no códice Porto 714 (excepto *)
Conrad Paumann: "Mit ganczem willen" (instr.)*
John Bedyngham: Mon seul plaisir
Guillaume Dufay: "J'ay mis mon cuer" (instr.)
Anónimo: Helas n'array ie jamais mieux
Anónimo: "A Florence/Ellas la fille" (instr.)*
Robertus de Anglia: O fallaze e ria fortuna
John Bedyngham: O rosa bella
Contrafacta de José de Anchieta, evangelizador do Brasil:
Anónimo (música)/ José de Anchieta (texto tupi): Ave Maria poránga
Anónimo (música)/ José de Anchieta (texto): “Ó que pão, ó que comida” (Do Santíssimo Sacramento)
Juan de Anchieta: Congratulamini mihi omnes (instr.)
Anónimo (música)/ José de Anchieta (texto): “Oh Dios infinito”
Anónimo (mús.)/ José de Anchieta (texto): “Mil suspiros dió Maria”
Paracumbé (instr.)
Anónimo /José de Anchieta (texto):"Venid a sospirar al verde prado/Venid a suspirar con Jesú amado"
NOTAS AO PROGRAMA
As Vozes Alfonsinas apresentam neste programa uma larga viagem através de repertórios musicais contrastantes: um deambular histórico (do século XII ao século XVI) e geográfico (do sul de França e do norte de Itália ao Brasil, passando pela Península Ibérica). De facto, a música circulou internacionalmente desde tempos recuados, sendo livremente adaptada aos novos contextos encontrados. Da Aquitânia medieval (sudoeste de França), será ouvida uma leitura para a Missa do Galo, tropada (ou seja, com acrescento poético-musical), na versão que chegou a Portugal através do Missal de Mateus (Vila Real). Também da Aquitânia houve peças a duas vozes que foram mais tarde adoptadas em mosteiros associados à Ordem cisterciense, como Las Huelgas (Burgos); no caso de Catholicorum concio, podemos seguir a trajectória da composição através de três versões que nos levam até ao início do século XIV. Um dos pólos de atracção da Cristandade medieval era Santiago de Compostela; teremos oportunidade de ouvir Cantigas a Santa Maria ligadas aos caminhos portugueses que, do sul, levavam a Compostela, e também composições polifónicas do norte de França que aí chegaram através do célebre Códice Calixtino. Na 2ª parte, a temática religiosa será provisoriamente posta de parte para se exemplificar a mistura de estilos (anglo-italiano e franco-flamengo) que ocorre num livro escrito em Ferrara no 3º quartel do século XV, hoje conservado no Porto; peças instrumentais da época complementam os excertos deste cancioneiro, famoso por incluir muitas peças de Guillaume Dufay e de compositores ingleses contemporâneos com ligações a Itália. À sofisticação elitista das cortes renascentistas sucedeu, c. 1500, um repertório polifónico mais acessível, com traços popularizantes, na qual muitos compositores ibéricos vazaram as suas reflexões amorosas. Um destes compositores foi Juan de Anchieta, também conhecido pelos seus motetes, dos quais Congratulamini mihi omnes, até há pouco inédito, foi publicado em Lisboa em 1540 na Arte de tanger de Gonçalo de Baena. Foi com base nesse corpus de cantigas e vilancetes amorosos que José de Anchieta, jesuíta originário das Ilhas Canárias, sobrinho de Juan de Anchieta, mas educado em Coimbra, e depois enviado para o Brasil, escreveu uma série de canções de temática religiosa, as quais, para maior eficácia pastoral, adoptavam os metros e a música de composições preexistentes. As suas letras eram em português, castelhano, ou tupi — já que o seu propósito evangelizador incluía a população índia que falava esta língua, da qual Anchieta se tornou o primeiro especialista e dicionarista europeu. As recriações dos seus contrafacta são baseadas no repertório que circulava em Portugal em meados do século XVI, época da sua formação em Coimbra, em especial as peças transcritas no Cancioneiro Masson. O Paracumbé, que se ouvirá entre as canções, é uma reconstituição de uma dança de influência africana, popular no Brasil por volta de 1600.